Interações e Brincadeiras - Relatório de Estudos

Olá, meu nome é Everton Andrade, este conteúdo faz parte de meu relatório de estudos de minha Graduação em Psicomotricidade:

Interações e Brincadeiras: 

Os Pilares da Educação Infantil


A Educação Infantil (EI) no Brasil não é apenas uma fase preparatória, mas a base de todo o desenvolvimento humano. A legislação vigente, consolidada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estabelece que as práticas pedagógicas devem se fundamentar em dois eixos estruturantes: as interações e a brincadeira.

Para além disso, a história e os marcos legais mostram que o papel da instituição vai muito além da guarda, exigindo uma postura intencional e planejada por parte dos educadores.





1. O Currículo na Educação Infantil: Interações e Brincadeiras

A BNCC (BRASIL, 2018) deixa claro que a interação durante o brincar é o que caracteriza o cotidiano da infância, promovendo aprendizagens e o desenvolvimento integral. Esse arranjo curricular se organiza em torno dos Campos de Experiências, que integram o conhecimento do patrimônio cultural com as situações de vida das crianças.

Essa abordagem garante que, por meio do brincar e da convivência, a criança desenvolva:

  • Ampliação do conhecimento de si e do outro: O respeito à cultura e às diferenças (Direito de Conviver).

  • Acesso à diversidade cultural: Ampliando a imaginação, criatividade e experiências (Direito de Brincar).

  • Participação ativa: No planejamento de atividades e na vida cotidiana da escola (Direito de Participar).

  • Desenvolvimento de saberes: Sobre a cultura, em modalidades como artes, ciência e tecnologia (Direito de Explorar).

  • Construção da identidade: Constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento (Direito de Conhecer-se).

Todas essas dimensões estão intrinsecamente ligadas ao ato de interagir e brincar.





2. A Indissociabilidade do Cuidar e do Educar

Historicamente, o cuidado da criança pequena fora do núcleo familiar foi, por muitos séculos, algo impensável. O surgimento das primeiras instituições foi impulsionado pela inserção da mulher no mercado de trabalho, tendo inicialmente um caráter puramente assistencialista.

Contudo, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI, 2010) e a BNCC superaram essa visão. Hoje, o papel da instituição é conceber as práticas de cuidado e educação como ações complementares e indissociáveis, favorecendo a formação integral da criança. Momentos como a alimentação, a higiene e o repouso são oportunidades ricas de aprendizado sobre autonomia, linguagem e afeto.





3. O Espaço e o Material como Instrumentos de Aprendizagem

O espaço e o mobiliário não são meros acessórios; eles são, segundo a pedagogia da infância, o "terceiro educador".

É correto afirmar que todos os espaços (internos e externos) são potencialmente promotores da brincadeira e da interação. Nesse sentido, é papel da escola:

  • Organizar o espaço em cooperação com as crianças, dando-lhes voz e autonomia sobre o ambiente que utilizam.

  • Garantir que, com relação à funcionalidade, o mobiliário permita a autonomia na sua utilização, facilitando o acesso e a manipulação.

  • Oferecer variedade de materiais para estimular e provocar a imaginação e a criatividade.





4. Planejamento e Desenvolvimento: Intencionalidade Pedagógica

O ato de planejar é inerente à ação humana. Na Educação Infantil, o planejamento deve ser intencional e flexível.

Para a construção de novos conhecimentos, o professor deve identificar os saberes prévios das crianças e utilizá-los como pontos de partida para a construção de novas aprendizagens, fugindo de modelos engessados como:

  • O planejamento para controle social, cujo objetivo é apenas controlar e ensinar as crianças a realizar tarefas escolares de forma adequada.

  • O modelo que prioriza o ensino formal e a antecipação da alfabetização.

Em contrapartida à pressão pela alfabetização precoce, a ciência do desenvolvimento cognitivo tem uma estreita ligação com o desenvolvimento motor. Em um primeiro momento, o que se deve priorizar é a estimulação perceptiva e o desenvolvimento do esquema corporal. As atividades motoras se classificam em Estabilizadoras, Locomotoras e Manipulativas, e a atenção a cada uma delas é o que constrói as bases sólidas para todas as aprendizagens futuras.



5. Educação Infantil: Um Direito Conquistado

É fundamental lembrar que a Educação Infantil passa a ser considerada um direito da criança a partir da Constituição Federal de 1988, sendo reforçada no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996.

Esse direito implica o dever do Estado de oferecer uma educação de qualidade, centrada na criança, que valorize o brincar, a interação e o desenvolvimento integral, e não a mera preparação para o próximo nível de ensino.



Lista de referências de estudos e literatura que fundamentam o conteúdo discutido, seguindo o padrão ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas):



I. Documentos Oficiais e Legislação (Marcos Legais e Fundamentos)


  1. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

    • Fundamenta a Educação Infantil como direito e dever do Estado (Art. 208, IV).

  2. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 1990.

    • Reforça o direito à educação na infância.

  3. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Brasília, DF: Diário Oficial da União, 1996.

    • Define a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica.

  4. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB n.º 5, de 17 de dezembro de 2009. Fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI). Brasília, DF: MEC, 2010.

    • Documento fundamental que estabelece os eixos interações e brincadeiras e a indissociabilidade entre o cuidar e o educar.

  5. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a Base. Brasília, DF: MEC, 2018.

    • Define os Campos de Experiências como o arranjo curricular, mantém os eixos estruturantes e os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento (Conviver, Brincar, Participar, Explorar, Expressar e Conhecer-se).



II. Literatura Pedagógica e Estudos Clássicos


  1. KRAMER, Sonia. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do impossível. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2006.

    • Aborda a história da Educação Infantil, a transição do assistencialismo para a educação e o papel social da creche e da pré-escola.

  2. KUHLMANN JR., Moisés. História da educação infantil brasileira: a gênese e o desenvolvimento de uma instituição. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

    • Importante para compreender o percurso histórico e o caráter inicial assistencialista das instituições.

  3. OLIVEIRA, Zilda de Moraes Ramos de (Org.). Educação Infantil: muitos olhares. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

    • Obra que discute diversos aspectos da EI, incluindo o cuidar e educar.

  4. ORTIZ, Cisele; CARVALHO, Maria Teresa de. Ser professor de bebês: cuidar, educar e brincar: uma única ação. São Paulo: Blucher, 2012.

    • Foca na indissociabilidade do cuidar e educar e na especificidade do trabalho com bebês.




III. Desenvolvimento Motor e Espaço


  1. GALLAHUE, David L.; OZMUN, John C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

    • Principal referência para a classificação das habilidades motoras em Estabilizadoras, Locomotoras e Manipulativas, e para a relação entre desenvolvimento motor e cognitivo.

  2. BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1995.

    • Trata da importância do brincar e do brinquedo no desenvolvimento infantil, fundamentando a escolha de materiais.

  3. CORSARO, William A. Sociologia da infância. Porto Alegre: Artmed, 2011.

    • Ajuda a entender a criança como ator social e o papel do espaço e das interações entre pares na construção da cultura infantil.


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