Compliance e o comportamento humano

 

🏛️ Pilares do Programa de Integridade (Compliance)



Um programa de Compliance robusto se apoia em um tripé de ações: 

Liderança e Comprometimento, Estrutura e Ferramentas, e Monitoramento Contínuo.


O compliance é o reconhecimento organizacional de que a ética deve ser gerenciada

Não se pode depender apenas do caráter individual; 

é preciso um sistema de regras e incentivos que reforce a conduta desejada e puna os desvios, 

garantindo que o comportamento humano esteja alinhado com a lei e os valores da empresa.




🧠 Razões do Compliance em Relação ao Comportamento Humano

O compliance atua como um sistema de suporte e correção, reconhecendo as falhas e pressões inerentes ao ser humano em um ambiente corporativo.


1. ⚖️ Combate à Tendência ao Oportunismo e ao Autointeresse

  • A Racionalidade Limitada: O comportamento humano, especialmente em ambientes de alta pressão ou com grandes recompensas, pode ser guiado pelo autointeresse e pela busca por vantagens rápidas, mesmo que antiéticas. O compliance estabelece barreiras claras e severas consequências para desincentivar o comportamento oportunista.

  • A Tríade da Fraude: O compliance é uma resposta direta à teoria da "Tríade da Fraude" que indica que a fraude ocorre quando três elementos estão presentes:

    • Pressão/Motivação: Necessidade financeira pessoal ou pressão por metas.

    • Oportunidade: Falta de controles internos (compliance fraco).

    • Racionalização: A pessoa convence a si mesma de que o ato não é errado ou que "merece" a vantagem.



2. 🚧 Prevenção da Racionalização e do Desvio Ético Gradual

  • O "Pequeno Desvio": A maioria das grandes fraudes começa com pequenos desvios, que são racionalizados ("é só desta vez", "ninguém vai notar"). O compliance atua para impedir que esses pequenos desvios criem uma "normalização da má conduta".

  • A Evasão Moral: As pessoas tendem a se sentir menos responsáveis por atos antiéticos se estiverem apenas "seguindo ordens" ou se a responsabilidade for difusa. O compliance define claramente a responsabilidade individual, combatendo essa evasão.



3. 🎯 Gerenciamento da Pressão por Resultados

  • O Paradoxo das Metas: Ambientes de trabalho com metas excessivamente agressivas ou recompensas ligadas apenas a resultados de curto prazo geram uma enorme pressão nos indivíduos.

  • Função do Compliance: Ele serve como uma "válvula de segurança" para garantir que, mesmo sob pressão intensa, os profissionais entendam que os meios éticos são tão importantes quanto os fins (os resultados).



4. 🧭 Padronização e Guia para a Tomada de Decisão

  • Ambiguidade Moral: Em situações complexas, a distinção entre o certo e o errado pode não ser clara (as "áreas cinzentas").

  • Função do Compliance: Ele fornece um código de conduta e políticas detalhadas que funcionam como um guia prático, oferecendo respostas prontas para dilemas morais, padronizando a decisão ética em toda a organização.



5. 🧑‍🤝‍🧑 Proteção Contra a Cultura do Grupo (Conformidade Social)

  • Comportamento Coletivo: As pessoas tendem a se conformar às normas do grupo, mesmo que elas sejam antiéticas (ex: "todo mundo faz isso").

  • Função do Compliance: O Canal de Denúncias e a garantia de não-retaliação capacitam o indivíduo a desviar-se da norma antiética do grupo e a agir conforme o padrão ético da empresa, protegendo-o da pressão social interna.


    





🏛️ Pilares do Programa de Integridade (Compliance)

Um programa de Compliance robusto se apoia em um tripé de ações: Liderança e Comprometimento, Estrutura e Ferramentas, e Monitoramento Contínuo.


1. 🛡️ Comprometimento da Alta Direção e Liderança

Este é o pilar mais crítico. Sem o apoio visível e inequívoco dos líderes, o programa é visto apenas como "burocracia".

  • Apoio Visível e Inequívoco: A alta direção (Conselho de Administração, Diretores) deve demonstrar publicamente seu apoio ao programa, alocando recursos e tempo.

  • Tom no Topo (Tone at the Top): Os líderes devem ser os primeiros a seguir as regras, dando o exemplo e reforçando a cultura de integridade de cima para baixo.

  • Alocação de Recursos: Garantir que o programa tenha orçamento, equipe e autonomia suficientes para funcionar de forma independente e eficaz.



2. 📝 Padrões, Políticas e Procedimentos (Códigos)

Este pilar estabelece as regras e os limites da conduta esperada.

  • Código de Ética e Conduta: O documento central que formaliza a visão e os valores da empresa, especificando a conduta esperada para todos os colaboradores, fornecedores e parceiros.

  • Políticas Específicas: Criação de normas detalhadas para as áreas de maior risco, como:

    • Política de Brindes, Presentes e Hospitalidade.

    • Política Anticorrupção e Antissuborno.

    • Política de Doações e Patrocínios.

    • Política de Conflito de Interesses.

  • Controles Internos: Implementação de processos e procedimentos operacionais que garantam o cumprimento das leis e políticas internas (ex: aprovação dupla de pagamentos de alto valor, segregação de funções).



3. 🧠 Treinamento e Comunicação

Não basta ter regras; é preciso que todos as compreendam e saibam como aplicá-las em seu dia a dia.

  • Treinamento Periódico: Realização de sessões de treinamento obrigatórias e específicas, abordando os riscos e as políticas da empresa. O treinamento deve ser adaptado ao público (ex: a alta direção precisa de treinamento diferente do time operacional).

  • Comunicação Constante: Utilização de diversos canais (e-mails, intranets, cartazes) para reforçar mensagens de integridade e manter a cultura ética viva e prioritária.



4. 📢 Canal de Denúncias, Investigação e Disciplina

Este pilar garante que as infrações sejam detectadas e tratadas de forma justa e consistente.

  • Canal de Denúncias (Whistleblowing): Um canal seguro, confidencial e, preferencialmente, operado por um terceiro independente, que permita aos colaboradores relatar, sem medo de retaliação, violações ao código ou à lei.

  • Processo de Investigação: Estabelecimento de procedimentos claros para a apuração de denúncias, garantindo a imparcialidade, a rapidez e o sigilo.

  • Medidas Disciplinares: Aplicação de sanções proporcionais e consistentes para as violações comprovadas, independentemente do cargo do infrator.



5. 🔍 Análise de Risco e Due Diligence

O programa de compliance deve ser dinâmico e focado nos riscos reais da organização.

  • Avaliação de Risco: Identificação, classificação e priorização dos riscos de corrupção e fraude específicos da empresa, considerando o setor, a localização geográfica e o relacionamento com o setor público.

  • Due Diligence de Terceiros: Procedimentos de verificação de integridade (histórico, reputação, situação legal) de parceiros de negócios, fornecedores e agentes intermediários antes de fechar contratos, a fim de mitigar o risco de a empresa ser responsabilizada por atos de terceiros.



6. 🔄 Monitoramento e Aperfeiçoamento (Melhoria Contínua)

O ambiente de risco muda constantemente, e o programa deve se adaptar.

  • Auditorias e Monitoramento: Realização de auditorias internas periódicas e testes para garantir que os controles estão funcionando como deveriam.

  • Aperfeiçoamento Contínuo: Avaliação regular do programa para identificar falhas, medir sua eficácia e promover ajustes, garantindo que ele não se torne obsoleto.












REFERÊNCIAS


1. Teoria da Agência (Agency Theory)

Esta é uma das bases econômicas e de governança que justifica os mecanismos de controle, como o compliance.

  • Conceito Central: Foca na relação entre o Principal (acionistas, proprietários) e o Agente (gestores, administradores).

  • Problema de Comportamento: A teoria assume que o Agente, ao tomar decisões, pode priorizar seu interesse próprio (salário, bônus, prestígio) em detrimento dos interesses do Principal (maximização do valor da empresa). Isso gera o conflito de agência.

  • Fundamento para o Compliance: O compliance (junto com a Governança Corporativa) atua como um conjunto de mecanismos de monitoramento e incentivo para alinhar o comportamento dos Agentes (gestores) aos interesses do Principal, reduzindo o risco de ações oportunistas.

  • Referências Chave: Trabalhos de Michael C. Jensen e William H. Meckling (1976), que formalizaram a Teoria da Agência.



2. Teoria da Tríade da Fraude (Fraud Triangle Theory)

Desenvolvida por um sociólogo e criminologista, esta teoria é fundamental na área de auditoria e investigação de fraudes, sendo uma referência direta para o Risco de Integridade.

  • Autor Principal: Donald R. Cressey (1953/1973).

  • Conceito Central: Três elementos devem estar presentes para que uma pessoa cometa fraude:

    1. Pressão (Incentivo/Motivação): Uma necessidade financeira pessoal ou uma cobrança extrema por resultados.

    2. Oportunidade: A percepção de que o ato ilícito pode ser cometido sem ser detectado (falha no controle interno – alvo direto do compliance).

    3. Racionalização: O processo mental que permite ao infrator justificar o ato como aceitável ou merecido ("eu peguei emprestado", "a empresa me deve").

  • Fundamento para o Compliance: O Pilar Oportunidade é o mais diretamente atacado pelo compliance. Ao fortalecer os controles internos (Segregação de Funções, Auditorias, Due Diligence), o compliance elimina a percepção de oportunidade, prevenindo a ocorrência da fraude.



3. Ética Comportamental (Behavioural Ethics)

Este campo de estudo, mais recente, combina psicologia e ética para analisar como as pessoas realmente tomam decisões, e não como elas deveriam tomar.

  • Conceito Central: A ideia de Racionalidade Limitada Ética (Bounded Ethicality). Afirma que as pessoas frequentemente agem de forma antiética não por uma escolha consciente e maligna, mas devido a vieses cognitivos e limitações que as impedem de reconhecer a própria má conduta.

  • Vieses Relevantes:

    • Vieses Implícitos: Preconceitos inconscientes que levam à discriminação (motivo da política de diversidade no compliance).

    • Incentivo Enquadrado (Framing Effect): As decisões éticas são influenciadas pela forma como a informação é apresentada.

  • Fundamento para o Compliance: O compliance usa esses insights para criar programas de treinamento e comunicação mais eficazes, focando em como os vieses atuam no dia a dia para que os colaboradores "percebam" a própria anti-ética.

  • Referências Chave: Trabalhos de Max Bazerman, Ann Tenbrunsel e David Messick.



4. Teoria do Diamante da Fraude (Fraud Diamond Theory)

Uma evolução da Tríade da Fraude, que adiciona um quarto elemento.

  • Autor Principal: Donald R. Cressey e David T. Wolfe (2004).

  • Quarto Elemento: Capacidade (Capability). Para cometer uma fraude complexa, o indivíduo precisa de conhecimentos específicos (saber como o sistema de controle funciona e como burlá-lo) e de uma posição de poder ou autoridade.

  • Fundamento para o Compliance: A inclusão da Capacidade reforça a necessidade de Due Diligence e da avaliação do risco de integridade em posições-chave, bem como a importância de o programa de compliance ser supervisionado por uma área com autoridade e autonomia para agir.









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