Princípios de Segurança em Média Tensão (ABNT NBR 14039)
Princípios de Segurança em Média Tensão (ABNT NBR 14039)
A norma ABNT NBR 14039 é o guia fundamental para a concepção e execução de instalações elétricas de média tensão seguras no Brasil. Seu objetivo principal é estabelecer as exigências mínimas necessárias para que um projeto elétrico funcione corretamente, sem oferecer riscos. O foco da norma é, acima de tudo, garantir a proteção de pessoas, animais, bens materiais e do meio ambiente contra os perigos inerentes à eletricidade.
Onde a norma se aplica?
De acordo com a seção 1.5, suas diretrizes são válidas para:
- Instalações novas.
- Reformas em instalações existentes.
- Instalações de caráter temporário (como em canteiros de obras).
Onde a norma NÃO se aplica?
É igualmente importante saber os limites da norma. Conforme a seção 1.8, ela não cobre:
- Instalações de concessionárias de energia (que seguem normas próprias de serviço público para geração, transmissão e distribuição).
- Instalações de cercas eletrificadas (cobertas por normas específicas para esse fim).
- Procedimentos de trabalho com circuitos energizados, que possuem normas específicas e mais rigorosas.
Antes de aplicar qualquer medida de proteção, o primeiro passo é sempre entender o contexto e os desafios do local onde a instalação será feita.
2. O Ponto de Partida: Análise das Influências Externas
Um projeto elétrico seguro não pode ser genérico. Ele deve ser adaptado ao ambiente onde será implementado. A norma chama essas condições ambientais e de uso de influências externas. Analisá-las é crucial porque cada fator — desde a umidade do ar até o tipo de pessoa que irá circular no local — exige uma solução de segurança específica para mitigar riscos.
Um dos exemplos mais importantes dessa análise é a classificação da competência das pessoas que terão acesso à instalação, dividida em três níveis: BA1 (Comuns), que são pessoas sem conhecimento técnico; BA4 (Advertidas), que são pessoas informadas ou supervisionadas por profissionais qualificados para evitar os perigos da eletricidade (como equipes de manutenção geral); e BA5 (Qualificadas), que são engenheiros e técnicos com conhecimento e experiência para trabalhar diretamente com os sistemas elétricos.
A tabela abaixo, baseada na seção 4.3 da norma, ilustra como diferentes influências impactam as decisões de projeto:
Categoria da Influência | Exemplo (Código) | Descrição Simplificada | Impacto na Segurança |
Meio Ambiente | AD5 - Jatos de água | Locais que são frequentemente lavados com mangueiras sob pressão. | Exige que os equipamentos (painéis, motores) tenham invólucros com alto grau de proteção contra a entrada de água (alto grau IP). |
Meio Ambiente | AG3 - Significativos | Ambientes com condições industriais severas, onde os equipamentos podem sofrer impactos mecânicos de até 20 Joules. | Os invólucros dos equipamentos devem ser robustos e resistentes a choques mecânicos para proteger os componentes internos. |
Utilização | BA1 - Pessoas Comuns | Pessoas inadvertidas, sem conhecimento técnico sobre os riscos elétricos (público em geral). | O projeto deve impedir completamente o acesso de pessoas BA1 a áreas de risco, utilizando barreiras, invólucros e sinalização. |
Utilização | BA4 - Pessoas Advertidas | Pessoal de operação ou manutenção informado sobre os riscos, mas que não trabalha diretamente na parte elétrica. | Podem acessar áreas restritas sob supervisão, mas as proteções devem ser claras e robustas para evitar contato acidental. |
Utilização | BA5 - Pessoas Qualificadas | Engenheiros e técnicos com experiência para evitar os perigos da eletricidade. | Podem realizar manobras e manutenção em áreas de serviço elétrico, onde as exigências de proteção podem ser diferentes. |
Utilização | BE2 - Risco de incêndio | Locais onde são processados ou armazenados materiais inflamáveis. | Requer o uso de componentes elétricos que não gerem faíscas e medidas rigorosas de proteção contra superaquecimento. |
Construção da Edificação | CA2 - Combustíveis | Edificações construídas principalmente com materiais combustíveis, como madeira. | A instalação deve ser projetada para evitar a propagação de fogo, usando materiais com baixa condutividade térmica e distâncias seguras. |
Com o ambiente e seus riscos devidamente mapeados, podemos agora focar nos três pilares fundamentais que sustentam a segurança de qualquer instalação de média tensão.
3. Os 3 Pilares da Proteção Elétrica
A segurança contra os perigos da eletricidade se baseia em três estratégias principais e interligadas, que devem ser aplicadas em conjunto.
3.1. Pilar 1: Proteção Contra Choques Elétricos
O objetivo aqui é impedir que pessoas ou animais entrem em contato com partes que estão normalmente energizadas, chamadas de partes vivas. A proteção se divide em duas frentes:
- Proteção contra contatos diretos: Esta medida visa impedir o toque acidental direto em um condutor ou componente energizado. As formas mais comuns de proteção, conforme a seção 5.1.1.2.4, são:
- Barreiras e Invólucros: Utilização de caixas, painéis e grades que isolam fisicamente as partes vivas, impedindo o acesso. Esses invólucros devem ser robustos e só podem ser abertos com o uso de uma chave ou ferramenta.
- Distâncias Seguras: Manter um afastamento mínimo entre as partes vivas e as áreas de circulação, conforme estabelecido nas figuras 7 e 8 da norma. Isso garante que, mesmo sem uma barreira física, o contato seja impossível durante a circulação normal.
- Proteção contra contatos indiretos: Esta proteção atua em caso de falha. Imagine que um fio se solta dentro de um motor e encosta em sua carcaça metálica. Essa carcaça, que normalmente não tem tensão, se torna um perigo. As principais defesas são:
- Aterramento e Ligação Equipotencial: O princípio é garantir que todas as partes metálicas que podem ser tocadas estejam no mesmo potencial elétrico (idealmente, o potencial da terra). Isso é feito interligando-as e conectando-as a um sistema de aterramento robusto. Em caso de falha, a corrente é desviada para a terra, fazendo com que os dispositivos de proteção atuem rapidamente. A ligação equipotencial conecta:
- As carcaças metálicas de todos os equipamentos elétricos (motores, painéis, transformadores).
- As estruturas metálicas da edificação (vigas, pilares).
- As tubulações metálicas de outras utilidades (água, gás, ar comprimido).
- As blindagens e armações metálicas de cabos elétricos.
3.2. Pilar 2: Proteção Contra Efeitos Térmicos
Equipamentos elétricos geram calor durante seu funcionamento normal. Se esse calor não for controlado, pode causar queimaduras em pessoas e iniciar incêndios. A seção 5.2.1 estabelece que a instalação deve ser projetada para evitar esses riscos.
As 3 medidas essenciais para proteção contra incêndio, baseadas na seção 5.2.2.2, são:
- Montar os equipamentos elétricos sobre materiais que suportem altas temperaturas e possuam baixa condução térmica.
- Caso a superfície não seja adequada, deve-se separar os equipamentos da construção usando materiais com essas mesmas características de isolamento térmico.
- Garantir distância e ventilação suficientes para que o calor gerado seja dissipado de forma segura, sem superaquecer materiais próximos.
Além disso, a norma define temperaturas máximas de superfície (Tabela 23) para partes de equipamentos que podem ser tocadas. Isso limita o quão quente uma alavanca ou um painel pode ficar, protegendo as pessoas contra queimaduras.
3.3. Pilar 3: Proteção Contra Sobrecorrentes
Uma sobrecorrente é qualquer corrente elétrica com valor superior ao nominal do circuito. Ela é extremamente perigosa, pois pode superaquecer os cabos, derreter a isolação e causar incêndios ou danos permanentes aos equipamentos. Existem dois tipos principais:
- Sobrecargas: Ocorrem quando a corrente fica um pouco acima do normal por um tempo prolongado (ex: ligar muitos equipamentos em um mesmo circuito).
- Curtos-circuitos: Ocorrem quando a corrente atinge valores altíssimos em uma fração de segundo (ex: contato direto entre dois condutores de fases diferentes).
A norma exige dispositivos que detectem e interrompam essas correntes perigosas. Para a proteção geral de subestações, as seções 5.3.1.1 e 5.3.1.2 estabelecem requisitos diferentes com base na potência:
Capacidade Instalada | Dispositivo de Proteção Geral Exigido |
Menor ou igual a 300 kVA | Disjuntor com relés (funções 50 e 51) OU Chave seccionadora com fusíveis. |
Maior que 300 kVA | Exclusivamente disjuntor com relés (funções 50 e 51). |
Nota: As funções 50 e 51 referem-se a proteções contra curto-circuito e sobrecarga, respectivamente.
Além de um projeto seguro baseado nestes três pilares, a segurança contínua da instalação depende fundamentalmente de procedimentos corretos durante a operação e a manutenção.
4. Segurança na Prática: Regras de Ouro para Operação e Manutenção
A segurança elétrica não termina com a entrega do projeto. Ela é uma prática contínua, que exige disciplina e procedimentos rigorosos em todas as atividades de operação e manutenção. A seção 8.1 da norma estabelece regras fundamentais para garantir a segurança dos profissionais.
Checklist Essencial de Segurança para Manutenção
- Desenergização e Verificação: Antes de iniciar qualquer trabalho, a instalação deve ser completamente desligada (desenergizada). Em seguida, é obrigatório confirmar a ausência de tensão usando instrumentos adequados (8.1.1).
- Autorização Qualificada: Toda e qualquer manobra em média tensão só pode ser realizada com a autorização expressa de um profissional qualificado (BA5), que possui conhecimento técnico e experiência para gerenciar os riscos (8.1.5).
- Trabalho em Equipe: Nenhuma manobra deve ser feita por uma única pessoa. A norma exige a presença de, no mínimo, duas pessoas, sendo que uma delas deve ser obrigatoriamente um profissional qualificado (BA5), garantindo supervisão e apoio mútuo (8.1.6).
- Equipamentos de Proteção: É obrigatório o uso de todos os Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC), como cones e fitas de isolamento, e Equipamentos de Proteção Individual (EPI) apropriados para o risco elétrico, como luvas isolantes e vestimentas especiais (8.1.7).
5. Conclusão: Segurança Como Prioridade Inegociável
A segurança em instalações elétricas de média tensão é o resultado da combinação de um projeto técnico bem fundamentado — baseado nos pilares de proteção contra choques, efeitos térmicos e sobrecorrentes — e da aplicação rigorosa de práticas operacionais seguras. As prescrições da ABNT NBR 14039 representam as exigências mínimas para proteger vidas e patrimônio. Por essa razão, seu estudo e sua aplicação não são apenas uma recomendação, mas uma obrigação para todo profissional que atua na área elétrica, garantindo que a energia seja usada de forma eficiente e, acima de tudo, segura.

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