TREINAMENTO BRIGADA DE INCÊNDIO - EDIFÍCIO JOELMA 1974

Olá, meu nome é Everton Andrade, Pós graduado em Gestão e Tecnologia, Técnico em Segurança do trabalho, bombeiro civil. Vamos juntos conhecer a história do incêndio do edifício Joelma, refletir sobre as perdas e como devemos proceder na prevenção e combate ao incêndio.



História do Incêndio do Edifício Joelma (1974)

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O incêndio do Edifício Joelma, 

ocorrido em São Paulo em 1º de fevereiro de 1974, é um dos eventos mais trágicos da história do Brasil e um marco que revolucionou as normas de segurança e prevenção de incêndios no país. O caso serve como um estudo de caso fundamental em treinamentos de brigadas e arquitetura de segurança.





📅 Contexto do Desastre

O Edifício Joelma era um prédio comercial de 25 andares, localizado no centro de São Paulo, na época do auge da expansão urbana e verticalização da cidade.

  • Data e Hora: 1º de fevereiro de 1974, por volta das 8h50 da manhã.

  • Vítimas: 187 mortos e mais de 300 feridos. Muitas vítimas fatais estavam presas no topo do edifício ou nos elevadores.

  • Duração: O incêndio durou mais de quatro horas e o rescaldo se estendeu por dias.

  • Impacto Legal: O evento, junto ao incêndio do Edifício Andraus (1972), levou à criação de legislação de segurança contra incêndio muito mais rigorosa, exigindo, por exemplo, o uso obrigatório de portas corta-fogo, escadas pressurizadas e sistemas de hidrantes em edifícios altos.





💥 Causas e Fatores Contribuintes

O desastre foi o resultado de uma combinação fatal de falhas elétricas e deficiências estruturais de segurança:


1. Causa Inicial (Fonte de Ignição)

  • Curto-Circuito: O fogo começou no 12º andar, em um aparelho de ar-condicionado. A causa específica foi um curto-circuito na fiação elétrica do aparelho, que estava sobrecarregada ou mal dimensionada.



2. Fatores de Propagação (Combustível e Comburente)

  • Materiais Inflamáveis: O Edifício Joelma utilizava farto material de acabamento inflamável, comum na época: forros de plástico, divisórias de madeira e carpetes sintéticos. Esses materiais liberaram rapidamente uma fumaça densa e tóxica.

  • Duto de Ar Condicionado: A principal rota de propagação vertical das chamas e da fumaça tóxica foi o duto central do sistema de ar-condicionado, que funcionou como uma chaminé, levando o fogo rapidamente para os andares superiores.

  • Janelas Abertas: As janelas abertas nos andares facilitaram a entrada de oxigênio (comburente), intensificando as chamas e a combustão.



3. Fatores que Impediram a Evacuação e o Combate

  • Ausência de Escadas de Emergência Seguras: O prédio não possuía escadas à prova de fumaça. As únicas escadas disponíveis eram abertas, permitindo que o calor e a fumaça as tornassem intransitáveis em minutos.

  • Elevadores em Uso: Muitas pessoas tentaram usar os elevadores para evacuar. A eletricidade falhou, e os elevadores pararam entre os andares, resultando em 40 vítimas carbonizadas no poço do elevador.

  • Falta de Sinalização e Treinamento: Não havia sinalização de emergência adequada e a maioria dos ocupantes não estava treinada para uma evacuação em massa (ausência ou ineficiência da brigada).

  • Altura Limitante: O Edifício Joelma estava além do alcance máximo das escadas Magirus do Corpo de Bombeiros da época, dificultando o resgate nos andares mais altos.






👨‍🚒 Prevenções e Lições para Treinamento de Brigada

O caso Joelma fornece lições de vida inestimáveis, que devem ser o cerne de qualquer treinamento de brigada de incêndio.

Lição do JoelmaPrevenção e Procedimento da Brigada
Propagação Rápida da FumaçaTreinamento de Evacuação: Ensinar a priorizar a segurança (fumaça mata mais que o fogo), caminhar agachado e, se possível, fechar as portas para isolar o fogo e a fumaça.
Curto-Circuito como CausaManutenção Preventiva: Inspeção rigorosa das instalações elétricas e sistemas de ar-condicionado. A brigada deve saber desligar a chave geral de energia em caso de princípio de incêndio elétrico (Classe C).
Uso de Elevadores FatalProcedimento Padrão: Reforçar a regra de NUNCA utilizar elevadores em caso de incêndio, exceto se especificamente designado para resgate por bombeiros em escada pressurizada. Priorizar escadas.
Escadas InsegurasUso da Estrutura: Treinar a brigada no uso correto de escadas de emergência pressurizadas ou enclausuradas (portas corta-fogo) para garantir uma rota de fuga segura.
Falta de ComunicaçãoAlarme e Acionamento: Garantir que o primeiro passo seja acionar o alarme e ligar para o Corpo de Bombeiros (193), informando a localização exata do foco.
Materiais CombustíveisInspeção de Risco: A brigada deve monitorar e reportar o acúmulo de materiais de fácil combustão em rotas de fuga ou áreas críticas, seguindo as normas atuais de acabamento (uso de materiais não combustíveis).
















I. Conceitos Fundamentais do Fogo



1. Fogo e Combustão

  • Fogo: É o resultado da Combustão, que é uma reação química de oxidação (liberação de energia e calor) rápida e auto sustentável, que produz luz, calor e fumaça.

  • Ponto de Ignição: A menor temperatura em que um combustível libera vapores suficientes para iniciar a combustão.

  • Ponto de Fulgor: A menor temperatura em que um combustível libera vapores que, ao entrarem em contato com uma fonte externa de calor (faísca, chama), incendeiam-se.



2. Triângulo e Tetraedro do Fogo

O Triângulo do Fogo representa os três elementos essenciais para a ocorrência da combustão:

  1. Combustível: O material que queima (sólido, líquido ou gasoso).

  2. Comburente: Geralmente o Oxigênio (O₂) presente no ar (a combustão necessita de, no mínimo, 16% de Oxigênio).

  3. Calor: A energia de ativação necessária para iniciar a reação e liberar os vapores do combustível.

O Tetraedro do Fogo (a representação moderna) adiciona um quarto elemento, essencial para a manutenção e propagação do fogo:

  1. Reação em Cadeia: A propagação da combustão de forma contínua, onde o calor gerado pelo próprio fogo mantém a produção de gases inflamáveis, perpetuando o ciclo.





🔥 II. Classes de Incêndio

A classificação do incêndio é vital, pois define qual agente extintor é seguro e eficaz para uso.

ClasseCombustívelExemploAgente Extintor RecomendadoAgente Proibido
ASólidos fibrosos (deixam cinzas/brasa).Madeira, papel, tecido, lixo.Água, Espuma, PQS ABC.Nenhum (mas água é o mais eficaz).
BLíquidos e Gases inflamáveis (queimam só na superfície).Gasolina, álcool, diesel, GLP.$\text{CO}_2$, PQS (BC/ABC), Espuma.Água (espalha o líquido inflamável).
CEquipamentos e instalações elétricas energizadas.Painéis elétricos, computadores, motores.$\text{CO}_2$, PQS (BC/ABC).Água e Espuma (conduzem eletricidade).
DMetais pirofóricos.Sódio, Magnésio, Potássio.Pó Químico Especial (Específico para a Classe D).Água e a maioria dos agentes comuns.
KÓleos e gorduras de cozinha (cozinha industrial).Óleo vegetal ou animal quente.Agente Saponificante (Classe K).Água (pode causar splash e espalhar o fogo).




🛠️ III. Agentes Extintores e Técnicas de Extinção

As técnicas de extinção agem removendo um ou mais elementos do Tetraedro:

TécnicaElemento RemovidoAgente Extintor Típico
ResfriamentoCalorÁgua ($\text{H}_2\text{O}$).
AbafamentoComburente ($\text{O}_2$)Gás Carbônico ($\text{CO}_2$), Espuma, Manta.
IsolamentoCombustívelRemoção do material que ainda não está em chamas.
Quebra da Reação em CadeiaReação em CadeiaPó Químico Seco (PQS) e Agentes Halogenados.

Tipos de Agentes Extintores

  • Água: Excelente para a Classe A (resfriamento e abafamento). Perigosa em B, C e K.

  • Gás Carbônico ($\text{CO}_2$): Atua por abafamento (reduz $\text{O}_2$) e resfriamento. Não conduz eletricidade. Ideal para Classes B e C.

  • Pó Químico Seco (PQS) - BC ou ABC: Atua primariamente por quebra da reação em cadeia. É o mais versátil (PQS ABC).

  • Espuma: Atua por abafamento e resfriamento. Ideal para grandes áreas de Classe A e B (não-alimentos).

  • Agente Saponificante (Classe K): Reage com gordura, transformando-a em uma espuma isolante.




🧯 IV. Equipamentos de Combate e Prevenção


1. Equipamentos de Extinção

  • Extintores de Incêndio: Portáteis, de fácil manuseio. Devem ser dimensionados e distribuídos conforme o risco e a área de cobertura (IT 21).

  • Sistema de Hidrantes e Mangotinhos: Reserva técnica de água sob pressão, com bombas, mangueiras, esguichos e abrigos para o combate por profissionais ou pela Brigada (IT 22).

  • Sistema de Sprinklers (Chuveiros Automáticos): Ativado pelo calor do fogo, lança água automaticamente sobre a área do incêndio para resfriamento e controle (IT 23).



2. Equipamentos de Detecção e Alarme

  • Detector de Fumaça/Calor: Identifica o princípio de incêndio e envia sinal para a central.

  • Acionador Manual (Botoeira): Permite que qualquer pessoa inicie o alarme ao identificar o fogo.

  • Central de Alarme: Recebe os sinais e ativa as sirenes e luzes de alerta para iniciar a evacuação.



3. Equipamentos de Abandono e Segurança

  • Sinalização de Emergência: Placas fotoluminescentes que indicam rotas de fuga, equipamentos e perigos (IT 20).

  • Iluminação de Emergência: Garante luz nas rotas de fuga em caso de falta de energia (IT 18).

  • Portas Corta-Fogo (PCF): Elementos essenciais para isolar as escadas e compartimentos, retardando a propagação do fogo e da fumaça (IT 14).





🚨 V. Procedimentos de Emergência (Brigada)

Os procedimentos da Brigada de Incêndio (fase de emergência) devem seguir uma ordem lógica e segura:


1. Alerta e Acionamento

  • Identificação: Descobrir o princípio de incêndio.

  • Alarme: Imediatamente, acionar o alarme e o Corpo de Bombeiros (193), informando a localização e o tipo de incêndio.



2. Ações de Combate (Se Seguro e Treinado)

  • Controle: Desligar a chave geral de energia e o gás (se o fogo não for elétrico).

  • Uso do Extintor: Tentar o combate apenas se o fogo for em seu princípio, utilizando o agente extintor adequado para a classe de incêndio.

    • Método PASS: Puxar o pino, Apontar para a base, Sujeitar o gatilho, Varrer a base.

  • Fracasso: Se o fogo começar a crescer, desista imediatamente do combate e inicie o abandono.



3. Abandono de Área (Evacuação)

  • Coordenação: A Brigada deve guiar a evacuação para as rotas de fuga (escadas).

  • Regras:

    • Não usar elevadores.

    • Andar rápido, mas sem correr.

    • Fechar portas e janelas (mas sem trancar).

    • Se houver fumaça, caminhar agachado.

  • Ponto de Encontro: Direcionar as pessoas para o Ponto de Encontro (área segura fora da edificação).



4. Primeiros Socorros e Apoio

  • A Brigada, se capacitada, presta o primeiro atendimento a vítimas até a chegada do socorro especializado (ex: avaliação, controle de sangramentos, auxílio em queimaduras).

  • Recepcionar os Bombeiros e informá-los sobre o local do foco, a presença de vítimas e as ações já tomadas.

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