O Discurso do Método de René Descartes

 


1. O princípio de buscar o saber na experiência e em si mesmo

Após concluir seus estudos tradicionais e constatar que eles não lhe proporcionavam certezas, Descartes adotou a postura de não buscar outra ciência além daquela que pudesse encontrar em si mesmo ou no "grande livro do mundo" . Ele passou a juventude viajando, frequentando pessoas de diferentes condições, coletando experiências e refletindo sobre elas para extrair utilidade prática . Mais tarde, tomou a decisão de estudar a si próprio e empregar as forças de seu espírito para escolher conscientemente os caminhos que deveria seguir .

2. Os princípios de conduta: A Moral Provisória

Ao iniciar seu processo de dúvida radical, Descartes percebeu que precisava de regras para guiar suas ações cotidianas. Ele não queria ficar vacilante em suas decisões práticas enquanto sua razão o obrigava a reformar seus juízos no campo teórico . Para isso, ele criou uma moral provisória baseada em máximas fundamentais de conduta:

  • Submissão às leis e moderação (Primeira Máxima): Consistia em obedecer às leis e costumes de seu país, conservar a religião na qual Deus lhe concedera a graça de ser instruído desde a infância e guiar-se pelas opiniões mais moderadas e distantes dos excessos, aceitas pelos mais sensatos com quem convivia .
  • Firmeza e resolução nas ações (Segunda Máxima): Consistia em ser o mais firme e decidido possível em suas ações cotidianas . Uma vez que decidisse seguir uma opinião (mesmo que duvidosa na teoria), ele a seguiria com constância, comparando-se a um viajante perdido em uma floresta que, em vez de andar em círculos, caminha na direção mais reta possível para sair dali . Isso o poupava de remorsos e arrependimentos comuns aos espíritos fracos .
  • Autodomínio frente ao destino (Terceira Máxima): Orientava a vencer a si próprio antes do que ao destino, e a modificar seus desejos antes do que a ordem do mundo . Descartes habituou-se a acreditar que nada está inteiramente sob nosso poder, exceto os nossos próprios pensamentos . Ao aceitar os limites impostos pela natureza sobre o que é exterior a nós, ele conseguia manter-se contente mesmo diante de privações e adversidades .
  • O cultivo constante da razão (Quarta Máxima): Como fechamento de sua conduta, ele avaliou as ocupações humanas e escolheu como princípio supremo continuar a cultivar sua razão e progredir o máximo possível na busca da verdade, utilizando o método que havia concebido para si .

Essa sólida estrutura ética e existencial permitiu que Descartes passasse nove anos viajando e observando o mundo "mais como espectador do que como ator" antes de finalmente se isolar para estabelecer os fundamentos de sua metafísica .







Esta obra apresenta a fundamentação do pensamento de René Descartes

focando na busca por uma verdade incontestável através da razão. O autor detalha sua insatisfação com o ensino tradicional e descreve a criação de um método pessoal baseado em quatro regras lógicas para evitar o erro. Para nortear sua conduta durante esse processo de dúvida, ele estabelece uma moral provisória que equilibra prudência e determinação. O texto enfatiza a importância de reconstruir o conhecimento individual sobre bases sólidas, comparando essa tarefa à arquitetura de um único mestre. Por fim, Descartes relata suas viagens e o isolamento necessário para aplicar sua filosofia de maneira rigorosa e puramente racional.





As quatro regras do método

formuladas por René Descartes

funcionam de forma complementar para conduzir a razão humana com segurança rumo à verdade, evitando o erro, os preconceitos e a aceitação de opiniões falsas como se fossem verdadeiras. Descartes se inspirou na matemática e na geometria por serem as únicas ciências que, até então, haviam encontrado demonstrações certas e evidentes. Ele partiu do princípio de que todas as coisas inteligíveis estão interligadas por uma cadeia de razões, de modo que, se respeitarmos a ordem correta de dedução e nunca aceitarmos o falso pelo verdadeiro, nada será tão distante que não se possa alcançar ou tão oculto que não se possa descobrir.

A ajuda prática de cada uma das quatro regras na busca pela verdade se dá da seguinte maneira:
  1. A Regra da Evidência: Consiste em nunca aceitar nada como verdadeiro se não for conhecido claramente como tal. Ela exige evitar rigorosamente a pressa e a prevenção (preconceito), impedindo que o espírito formule juízos sobre aquilo que não se apresenta de forma clara e distinta. Essa regra blinda a mente contra falsas suposições e habitua o espírito a se alimentar de verdades sólidas.
  2. A Regra da Divisão (ou Análise): Propõe repartir cada uma das dificuldades examinadas em tantas parcelas quantas forem possíveis e necessárias para melhor resolvê-las. Ao fragmentar um problema complexo em suas menores partes, o entendimento humano consegue analisar cada elemento com muito mais foco e precisão.
  3. A Regra da Ordem (ou Síntese): Determina conduzir os pensamentos por ordem, iniciando pelos objetos mais simples e fáceis de conhecer para, pouco a pouco, subir como por degraus até o conhecimento dos mais compostos. Essa progressão lógica e ordenada garante que cada verdade descoberta sirva de regra e base sólida para encontrar as próximas.
  4. A Regra da Enumeração (ou Revisão): Orienta a realizar enumerações completas e revisões gerais em cada etapa do processo. Isso assegura que nenhum dado tenha sido negligenciado e que nenhum passo lógico da dedução tenha sido omitido, garantindo a certeza total do resultado final.
O grande benefício prático desse método é que, ao ser seguido estritamente, ele oferece a certeza de que o indivíduo está utilizando sua razão da melhor forma possível. Com o tempo, essa prática constante acostuma o espírito a conceber seus objetos de maneira muito mais nítida e distinta, fornecendo as ferramentas necessárias para desenredar até mesmo as questões mais complexas das ciências.






René Descartes chegou ao famoso
"eu penso, logo existo"
por meio de um processo de dúvida metódica e radical. Desejando encontrar algo que fosse absolutamente seguro e inquestionável, ele decidiu fazer exatamente o oposto do que fazemos na vida cotidiana: resolveu rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, para ver se, no final, restaria alguma verdade incontestável.
Para isso, ele aplicou a dúvida em três etapas sucessivas:
  1. A ilusão dos sentidos: Como os nossos sentidos às vezes nos enganam, ele assumiu que nenhuma coisa existia exatamente da forma como eles nos fazem imaginar.
  2. Os erros de raciocínio (paralogismos): Como existem homens que se enganam ao raciocinar, mesmo nas questões mais simples da geometria, Descartes reconheceu que também estava sujeito a falhas e rejeitou como falsas todas as razões que antes considerava demonstrações certas.
  3. A incerteza dos sonhos: Como os pensamentos que temos acordados também podem nos ocorrer enquanto dormimos (sem que sejam reais), ele decidiu fingir que tudo o que havia entrado em sua mente até aquele momento não passava de ilusões de seus sonhos.
A grande descoberta ocorreu justamente quando a dúvida parecia ter destruído tudo. Descartes percebeu que, no exato instante em que queria pensar que tudo era falso, era absolutamente necessário que ele, que pensava, fosse alguma coisa.
Essa percepção — de que o ato de duvidar e pensar exige a existência de um sujeito que pensa — revelou-se uma verdade tão firme e sólida que nem as hipóteses mais extravagantes dos céticos poderiam abalá-la. Por essa razão, ele a definiu, sem hesitação, como o primeiro princípio da filosofia que tanto procurava






O Discurso do Método de René Descartes não é dividido em "capítulos" tradicionais, mas sim em seis partes distintas,
conforme indicado no índice da obra
Abaixo estão listadas as seis partes com um resumo de seus respectivos conteúdos:


Primeira Parte: Considerações sobre as ciências
  • Conteúdo: Descartes inicia afirmando que o "bom senso" ou a razão é a coisa mais bem distribuída do mundo. Ele faz um balanço crítico de sua educação tradicional e das diversas ciências de sua época (como as letras, a filosofia, a teologia e as matemáticas), concluindo que nenhuma delas lhe proporcionava um conhecimento claro e seguro. Por isso, decide abandonar o estudo dos livros para buscar a ciência em si mesmo e no "grande livro do mundo", dedicando-se a viajar e observar os costumes humanos.

  1. "Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuílo mais do que já possuem".
  2. "Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem".
  3. "Os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam".
  4. "A leitura de todos os bons livros é igual a uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam apenas seus melhores pensamentos...".
  5. "Contudo, quando gastamos excessivo tempo em viajar, acabamos tornando-nos estrangeiros em nossa própria terra; e quando somos excessivamente curiosos das coisas que se realizavam nos séculos passados, ficamos geralmente muito ignorantes das que se realizam no presente".
  6. "Abandonei totalmente o estudo das letras. E, decidindo-me a não mais procurar outra ciência além daquela que poderia encontrar em mim mesmo, ou então no grande livro do mundo...".
  7. "E eu sempre tive um enorme desejo de aprender a diferenciar o verdadeiro do falso, para ver claramente minhas ações e caminhar com segurança nesta vida".
  8. "...aprendi a não acreditar com demasiada convicção em nada do que me havia sido inculcado só pelo exemplo e pelo hábito; e, dessa maneira, pouco a pouco, livrei-me de muitos enganos que ofuscam a nossa razão...".





Segunda Parte: As principais regras do método
  • Conteúdo: Relata o período em que esteve na Alemanha, onde passou o início do inverno isolado em um quarto aquecido. Refletindo sobre como as obras feitas por um único mestre tendem a ser mais perfeitas do que as construídas por vários, ele decide reformar seus próprios pensamentos. Para isso, ele reduz as inúmeras regras da lógica a quatro preceitos fundamentais (evidência, divisão, ordem e enumeração), inspirando-se na clareza e certeza da matemática.

  1. "...as ciências dos livros, ao menos aquelas cujas razões são apenas prováveis e que não apresentam quaisquer demonstrações... não se encontram, de forma alguma, tão próximas da verdade quanto os simples raciocínios que um homem de bom senso pode fazer naturalmente acerca das coisas que se lhe apresentam".
  2. "Jamais o meu objetivo foi além de procurar reformar meus próprios pensamentos e construir num terreno que é todo meu".
  3. "...nada se poderia imaginar tão estranho e tão pouco acreditável que algum dos filósofos já não houvesse dito...".
  4. "Porém, igual a um homem que caminha solitário e na absoluta escuridão, decidi ir tão lentamente, e usar de tanta ponderação em todas as coisas, que, mesmo se avançasse muito pouco, ao menos evitaria cair".
  5. "O primeiro [preceito] era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção...".



Terceira Parte: As regras da moral provisória
  • Conteúdo: Para não ficar indeciso em suas ações práticas enquanto reconstrói suas crenças por meio da razão, Descartes formula uma moral provisória composta por três ou quatro máximas:
    1. Obedecer às leis e costumes de seu país, mantendo-se na religião de sua infância;
    2. Ser o mais firme e decidido possível em suas ações;
    3. Procurar sempre vencer a si mesmo antes do que ao destino, mudando seus próprios desejos em vez de tentar mudar a ordem do mundo;
    4. Dedicar a vida ao cultivo da razão e ao progresso no conhecimento da verdade.

  1. "Minha segunda máxima consistia em ser o mais firme e decidido possível em minhas ações, e em não seguir menos constantemente do que se fossem muito seguras as opiniões mais duvidosas, sempre que eu me tivesse decidido a tanto".
  2. "Minha terceira máxima era a de procurar sempre antes vencer a mim próprio do que ao destino, e de antes modificar os meus desejos do que a ordem do mundo; e, em geral, a de habituar-me a acreditar que nada existe que esteja completamente em nosso poder, salvo os nossos pensamentos...".




Quarta Parte: As provas da existência de Deus e da alma humana
  • Conteúdo: É a seção metafísica da obra. Descartes descreve o processo de dúvida radical, na qual rejeita os sentidos, os raciocínios lógicos e as ilusões dos sonhos. A partir dessa dúvida, ele alcança sua primeira verdade inabalável: "eu penso, logo existo". Ele define que a alma (a substância pensante) é inteiramente distinta do corpo e mais fácil de conhecer do que ele, e formula provas racionais da existência de Deus como um ser perfeito.

  1. "...ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava".
  2. "...compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material".
  3. "...concluí que poderia tomar por regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras...".
  4. "Pois, enfim, quer estejamos despertos, quer dormindo, jamais devemos nos deixar convencer exceto pela evidência de nossa razão".




Quinta Parte: Questões de física e a diferença entre o homem e os animais
  • Conteúdo: Descartes resume suas teorias físicas e cosmológicas (sobre a luz, o sol, a Terra e as leis da natureza) que pretendia publicar em um tratado anterior. Ele também analisa detalhadamente o funcionamento do coração e a circulação do sangue, utilizando conceitos mecânicos. Por fim, discute a diferença entre os seres humanos e os animais (ou máquinas), argumentando que estes últimos operam puramente pela disposição mecânica de seus órgãos, enquanto o ser humano possui uma alma racional dotada da capacidade de pensar e falar de maneira autêntica.



Sexta Parte: Exigências para progredir na pesquisa da natureza e razões da obra
  • Conteúdo: Descartes explica por que decidiu não publicar o seu tratado de física completo (devido a condenações de teses científicas semelhantes na época por autoridades eclesiásticas). Ele defende a necessidade de uma ciência prática (como a medicina) voltada para o bem-estar e a saúde humana. Ele justifica a publicação dos ensaios que acompanham o Discurso (como a Dióptrica e os Meteoros), explica por que preferiu escrever a obra em francês em vez de latim, e convida os estudiosos a contribuírem com experimentos para o avanço da ciência comum.

  1. "...em lugar dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas, é possível encontrar-se uma outra prática mediante a qual, conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus... poderíamos... nos tornar como senhores e possuidores da natureza".





Afirmações para refletir
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Sobre a Razão e a Educação
  1. A razão é igual em todos os seres humanos: O bom senso ou a razão, definida como a capacidade de julgar corretamente e discernir o verdadeiro do falso, está distribuída igualmente entre todas as pessoas.
  2. A verdade depende do rumo dado ao pensamento: A diversidade de nossas opiniões não ocorre por serem uns mais inteligentes que os outros, mas apenas porque conduzimos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não consideramos as mesmas coisas.
  3. O bom espírito exige aplicação rigorosa: Não basta possuir um espírito ou inteligência brilhante; o fator determinante para o progresso do conhecimento é saber aplicá-lo bem.
  4. O ensino acadêmico tradicional é falho: Os estudos puramente literários e acadêmicos das grandes escolas não proporcionam um conhecimento seguro de tudo o que é útil para a vida, servindo essencialmente para o homem deparar-se com sua própria ignorância.
  5. As ciências puramente prováveis devem ser tidas como falsas: No campo da busca pela verdade absoluta, qualquer doutrina que seja meramente provável e sujeita a discussões deve ser rejeitada como se fosse falsa.
  6. O valor das matemáticas reside em seus fundamentos seguros: Dentre todos os estudos, apenas os matemáticos conseguiram encontrar demonstrações certas e evidentes, embora sua verdadeira utilidade para construir algo mais elevado ainda não estivesse totalmente desenvolvida na época.
  7. O verdadeiro aprendizado reside em si e na observação direta do mundo: Após libertar-se da tutela de seus mestres, o indivíduo deve buscar o conhecimento em si próprio ou no "grande livro do mundo", acumulando experiências e refletindo sobre as condutas humanas.
  8. Os costumes são moldados pela cultura e não pela razão pura: Muitas coisas que nos parecem extravagantes são aceitas por outros grandes povos; o hábito e o exemplo cultural nos convencem muito mais do que qualquer conhecimento racional seguro.


Sobre a Reformulação do Pensamento e o Método
  1. Obras executadas por um único autor são mais perfeitas: Sistemas científicos, leis e planos arquitetônicos elaborados sob a diretriz de uma única inteligência racional tendem a ser incomparavelmente mais perfeitos e bem organizados do que aqueles criados ou remendados por muitos mestres ao longo do tempo.
  2. A reforma do pensamento é estritamente individual: O projeto de reconstruir as ciências do zero não deve visar à reforma do Estado, da educação pública ou de grandes instituições, mas sim à reorganização dos próprios pensamentos em um terreno individual.
  3. A dúvida inicial deve ser universal e de uma vez por todas: Para reestabelecer as verdades, o filósofo deve rejeitar temporariamente todas as opiniões em que antes confiava para, depois, aceitá-las ajustadas ao nível da razão ou substituí-las por ideias melhores.
  4. Poucos preceitos lógicos são suficientes para o espírito: Ao contrário da lógica escolar, confusa e cheia de regras supérfluas, bastam quatro regras universais (evidência, divisão, ordem e enumeração) se houver uma resolução firme de nunca falhar em cumpri-las.
  5. A estrutura do universo é inteiramente racional: Todas as coisas que os homens podem conceber seguem-se em uma cadeia ordenada idêntica à das demonstrações geométricas, o que significa que não há verdade tão distante que não se alcance, nem tão oculta que não se descubra.


Sobre a Conduta e a Metafísica
  1. A ação prática exige uma moral provisória: Enquanto a razão obriga o sujeito a duvidar de seus julgamentos teóricos, é essencial adotar um código moral provisório composto por poucas máximas para que possa guiar suas ações práticas e continuar vivendo da maneira mais feliz possível.
  2. A indecisão na vida prática deve ser eliminada: Uma vez decidido a agir sob uma opinião (mesmo que seja duvidosa na teoria), o homem deve ser firme e constante em sua execução, libertando-se de remorsos e hesitações comuns aos espíritos fracos.
  3. Nossos pensamentos são a única coisa em nosso poder absoluto: Frente ao destino e ao mundo externo, a única coisa sob o domínio do homem são suas próprias ideias e julgamentos; aceitar essa máxima liberta o indivíduo de desejos inúteis e traz contentamento.
  4. O pensamento prova a existência de quem pensa: Mesmo na dúvida mais radical ou sob a hipótese de estar sonhando, o ato de pensar em duvidar exige a existência de quem realiza a ação. A verdade "eu penso, logo existo" é o primeiro princípio inabalável da filosofia.
  5. A alma é inteiramente distinta e independente do corpo: O eu racional (a substância pensante ou alma) não depende de qualquer componente físico ou lugar material para existir, sendo mais fácil de conhecer do que o próprio corpo e imune à morte física.
  6. O critério da verdade é validado por Deus: A regra geral de que tudo o que concebemos clara e distintamente é verdadeiro só é metafisicamente garantida porque Deus existe, é um ser infinitamente perfeito e a fonte de tudo o que há de real e verdadeiro em nós.
  7. A ideia de perfeição pressupõe a existência de Deus: O homem, sendo imperfeito (pois duvida e carece de conhecimento), possui a ideia de um ser perfeito; essa ideia não pode provir de sua própria limitação ou do nada, necessitando de uma causa real perfeita (Deus) para existir.


Sobre a Ciência Prática e a Saúde
  1. A ciência deve se tornar prática para dominar a natureza: Em oposição à filosofia puramente especulativa das escolas tradicionais, a humanidade deve focar em uma filosofia prática que permita compreender as forças físicas da natureza e usá-las a nosso favor, tornando-nos "senhores e possuidores da natureza".
  2. A medicina é a base do progresso humano: O maior benefício da filosofia prática reside no desenvolvimento da medicina, pois a conservação da saúde física e mental é o primeiro bem deste mundo, sendo capaz de nos livrar de inúmeras doenças e até da debilidade da velhice.












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